domingo, 25 de janeiro de 2009

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

poesia para variar

UM AMIGO

"Num daqueles dias de Outono, em que nos queima a vermelha labareda das folhas, um amigo pedia que lhe contasse uma história. «Salva-me a vida, conta-me uma história.» E eu recordei aquela mulher das Mil e uma Noites, que encadeava, com doçura e desespero, uma história na outra, pois só a história infinita nos permite escapar à maldição da morte.
Um amigo é uma história que nos salva."


Mário Rui de Oliveira, O Vento da Noite

e eis que humildemente anuncio o meu delicado intelecto


«A arte não é para mim só um modo de estar no mundo, mas de estar para além dele, quase um modo de achar em mim um rastro dos deuses mortos».

Vergílio Ferreira, Apelo da Noite

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

P.S. - A Lucibelya é preguiçosa e não escreve nada no blog. Vergonhoso.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009


Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade


domingo, 21 de dezembro de 2008


It's the hardest thing in the world to accept a "little" success and leave it that way.
Marlon Brando

sábado, 13 de dezembro de 2008

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

(...) com lâminas de velhas luas

com lâminas de velhas luas
cortas sempre a pele para dar de beber
às últimas sementes
e acreditas no súbito florir das acácias

a sangue bordas cicatrizes de ouro
sobre velhos vestidos de linho – mas o tempo há-de
calcinar a tua fulgurante adolescência

cálida estás ainda morta sob os cascalhos
de antigos palácios onde viveste
quieta dormes no leito dos lagos
debruçada sobre a translucidez dos espelhos

- porque recolhes o coração à antiguidade tumultuosa
destas sombras?
As crianças de éter perguntam-te o mistério purpúreo
dos sepulcros
são ingénuos pássaros de asa rendilhada

respondes que na penumbra
as palavras se fazem da fosforescência das cinzas
brotam dos pulsos como sôfregas aves
perpassam as memórias inquietas

dizes estou à espera de um cavaleiro
no dia em que regressar do incêndio dos túmulos
um último sol há-de banhar o
desespero


Arderam as lápides, Nunes Noite

(reflexo de conversas nocturnas sobre infâncias já longínquas e velhas ruínas de palácios)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008


na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viuva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas