terça-feira, 31 de março de 2009
as viúvas de Al Berto
é deste vazio absoluto (...)
que se fazem os cemitérios onde pernoitavas
e por este silêncio
de antigo claustro
que se matam as aves com violência
e os espelhos, aquosos, se quebram
se partem
se estilhaçam
ao reflectirem as ausências
mais presentes
segunda-feira, 30 de março de 2009
quinta-feira, 26 de março de 2009
segunda-feira, 23 de março de 2009
quinta-feira, 19 de março de 2009
trago abertos os pulsos (...)
trago abertos os pulsos
pelas lâminas
porque quero alimentar as rosas
mortas.
injectá-las de pólen e efervescente
magma
e abrir ainda as suas coroas difíceis.
dos túmulos silenciosos onde se
deitam trazê-las rubras
como corpos delicados
arrancá-las
ceifando as suas raízes dos leitos
onde se esquecem:
pétala a pétala ascender-lhes o lume.
e depois, com o sangue derramado
desta angústia
apagar rostos nomes datas
gravados antes de mim na
lápide fria.
2
a criança disse:
ao nascer não sabia dos sepulcros
nem da gestação das covas
ou do duro ofício das ceifas.
ao longo da vida me têm ensinado
a morrer.
mas ao silencioso fogo dos poentes
deixo ao esquecimento este simulacro
de amargura e
lembro-me dos pássaros a
eternidade.
calada, desenho asas na pele.
não raras vezes ressuscito
rosas
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
domingo, 25 de janeiro de 2009
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
poesia para variar
"Num daqueles dias de Outono, em que nos queima a vermelha labareda das folhas, um amigo pedia que lhe contasse uma história. «Salva-me a vida, conta-me uma história.» E eu recordei aquela mulher das Mil e uma Noites, que encadeava, com doçura e desespero, uma história na outra, pois só a história infinita nos permite escapar à maldição da morte.
Um amigo é uma história que nos salva."
Mário Rui de Oliveira, O Vento da Noite
e eis que humildemente anuncio o meu delicado intelecto
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
domingo, 21 de dezembro de 2008
sábado, 13 de dezembro de 2008
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
(...) com lâminas de velhas luas
cortas sempre a pele para dar de beber
às últimas sementes
e acreditas no súbito florir das acácias
a sangue bordas cicatrizes de ouro
sobre velhos vestidos de linho – mas o tempo há-de
calcinar a tua fulgurante adolescência
cálida estás ainda morta sob os cascalhos
de antigos palácios onde viveste
quieta dormes no leito dos lagos
debruçada sobre a translucidez dos espelhos
- porque recolhes o coração à antiguidade tumultuosa
destas sombras?
As crianças de éter perguntam-te o mistério purpúreo
dos sepulcros
são ingénuos pássaros de asa rendilhada
respondes que na penumbra
as palavras se fazem da fosforescência das cinzas
brotam dos pulsos como sôfregas aves
perpassam as memórias inquietas
dizes estou à espera de um cavaleiro
no dia em que regressar do incêndio dos túmulos
um último sol há-de banhar o
desespero
Arderam as lápides, Nunes Noite
(reflexo de conversas nocturnas sobre infâncias já longínquas e velhas ruínas de palácios)
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viuva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas


