domingo, 1 de novembro de 2009

é para ti que esta noite escrevo o fogo e o exílio (...)

é para ti que esta noite escrevo o fogo e o exílio
abrindo um círculo onde a memória cresce
é para ti: porque
sei que a tua loucura engoliu o alvor do meu corpo
e conheci a noite e a tortura melancólica dos cegos
que o teu incêndio queimou as minhas mãos
os meus cabelos
as tuas lâminas deceparam-me os versos
e há ossos no lugar de frutos
- mas perdoo-te e perdoo-me.

o canto solar das manhãs que tecia em torno da tua
nudez silenciou-se no interior do teu olhar vasado,
da violência abrupta dos dias
da aguda omnipresença da morte nestes quartos
(naufragados no odor de lírios, comprimidos, salina,
copos quebrados, cigarros)

mas os braços cansaram-se de lutar contra as
marés e os navios e as sereias e os corvos
e deixei-me na borda insidiosa do meu medo: de te
perder para os poços, para os rios caudelosos,
para os abismos, (sobretudo para os poços)
- receava que esquecesses o sol e os pomares
e o iridiscente lume dos poentes que juntos conhecemos
e pusesses o o corpo a embalar num sarcófago de flores

eis que nesta noite de novembro não faço mais que
beber o leite, o sangue derramado da nossa tragédia
e o mundo engole-nos outra vez tão lentamente, amor,
- pergunto-me se resguardas nos interstícios do peito
esse diário de cinzas (que é a história e o tempo que decorre
desde o dia em que os olhos se bateram frente a frente
contra a eternidade até ao dia em que todos os muros
se puseram a ser duros e intransponíveis entre nós)

pergunto-me se levas ainda o mesmo o coração a tremer
com os pássaros, inóspito lugar onde me acolheste,
órgão nunca seco ou lapidado que bebi com os dentes
e toda a ternura da sede; pergunto-me pelo coração
que ofereces agora gentilmente aos precipícios
- os poços que não pudeste evitar e que eu não soube
fechar antes da noite e do vento

1 comentário:

Brás, Paulão disse...

assim sinto-me pequenino e com pouca vontade de te mostrar os meus poeminhas.

(não cheguei a pedir licença pa vir aqui violar este sítio tão imaculado.)